Mostre, não conte

By Anna Laitano - February 18, 2019


O QUE É?



Em poucas palavras: o "mostrar ao invés de narrar" envolve o uso de técnicas demonstrativas, para estabelecer elementos narrativos. Oi? Ainda meio confuso, né? Tudo bem, muitas vezes essa ideia — apesar de ser super debatida em escrita criativa — pode ser difícil de entender em um primeiro momento. Mas uma vez que você consegue entender e aplicar, é como andar de bicicleta.





Narrar vs Mostrar



Quando você narra algo, simplesmente informa o seus leitores dos fatos. Dizer que Alice é "alta", "inteligente", "bonita" — tudo isso são exemplos de contar ou narrar, ao invés de mostrar.


Diferentemente, quando você pinta uma imagem mental, invocando sensações para que o leitor consiga imaginá-los perfeitamente, quase como se estivessem no mesmo universo, isso é mostrar. Mas como se faz isso, você pode estar se questionando. Vamos pegar a Alice "alta", "inteligente" e "bonita" que usamos acima, ok?


Contando nós apenas diríamos algo como: Alice não era apenas uma das garotas mais altas da sala, também era inteligente e bonita.


Isso empobrece a história, se compararmos com o que poderíamos fazer se mostrássemos, mais ou menos assim: Era difícil não sentir como se Alice fosse algum tipo de divindade; começando pela forma como sempre tínhamos que levantar o rosto para procurar seus olhos, ou como ela sempre parecia saber a resposta para perguntas que sequer se passam na mente da maioria de nós. Quando ela entrava na sala de aula, todos os olhares eram atraídos por uma fração de segundos em sua direção, contemplando a aura de um sorriso que brincava em seus lábios, então ela arrumava uma mecha do cabelo escuro atrás da orelha e tomava seu lugar na primeira fileira, liberando-nos do transe que sua presença causava.


Veja como as frases, no segundo exemplo, passam exatamente a ideia equivalente às palavras de mesma cor, no primeiro. É tudo questão de desenvolver um pouco mais. Dá mais trabalho? Sim, exige um pouco mais. Mas também pinta uma ideia bem mais clara, não é? A Alice do segundo exemplo parece bem mais viva, bem mais real, do que a do primeiro.


Quando não narrar?



O conceito de "mostrar, não contar" não é uma verdade escrita em pedra, que deve ser aplicada em toda e qualquer oportunidade. Muito pelo contrário, em algumas circunstâncias, é preferível enxugar a narração apenas contando algumas partes. Mas como saber quando aplicar e quando brecar? Em geral, você deve se perguntar sobre o valor que o mostrar adicionaria a história. Explico: Se você precisa contar uma série de eventos, como a passagem de um tempo, não precisa necessariamente detalhar tudo. Mostrar demais, às vezes, acaba por se tornar cansativo para o leitor, em um clássico caso de pecar pelo excesso. Da mesma maneira, você tem que ter em mente que o seu público-alvo também influencia na forma como você irá escrever a história; infantojuvenis, por exemplo, tendem a fazer menos uso de metáforas, preferindo o texto direto e descontraído, facilitando o entendimento dos jovens leitores.


Por vezes, quando as descrições começam a se estender ou vêm umas seguidas das outras, acabam também tendo o efeito oposto: Ao invés de invocar imagens na mente do leitor, faz com que o mesmo se distraia e seu pensamento voe longe.


Um exemplo que já ouvi amigos criticarem, é Madame Bovary (de Gustave Flaubert):


Os seus ternos, mais bem-feitos, pareciam de uma casimira mais solta, e os cabelos, puxados em cachos para as têmporas, lustrados com vaselinas mais finas. Tinham a tez da riqueza, essa tez branca a que realçam a palidez das porcelanas, o furta-cor do cetim, o verniz dos móveis finos e que o regime discreto de alimentação refinada entretém na saúde. O pescoço deles movia-se à vontade sobre gravatas baixas; as costeletas longas caíam sobre colarinhos rebatidos; enxugavam os lábios com lenços bordados com um grande monograma, de onde saía um odor suave. Os que estavam começando a envelhecer tinham aspecto jovem, enquanto algo de maduro estendia-se no rosto dos jovens. Em seus olhares indiferentes flutuava a quietude de paixões cotidianamente saciadas; e, através de seus modos delicados, transparecia aquela brutalidade particular comunicada pela dominação das coisas meio fáceis, nas quais a força se exerce e a vaidade brinca, o manejo dos cavalos de raça e a sociedade das mulheres perdidas.



Em determinado momento, você acaba por nem saber mais o que está sendo descrito e a leitura se torna maçante.


Como mostrar?



Algumas das dicas para mostrar são bem simples — mais do que você possa imaginar — e não precisam de tantos floreios, não.


  1. Diálogos



Os diálogos tendem a ser uma boa ideia. Ao invés de dizer que alguém estava triste ou chateado, coloque o leitor para perceber isso pela maneira como a pessoa fala algo de forma apática ou ríspida.


  1. Use sensações



A princípio pode parecer difícil, mas não é. No ensino médio você deve ter aprendido sobre figuras de linguagem, né? Lembra daquela de nome estranho, a tal da sinestesia? Se não lembra, relaxa, refresco a sua memória: Sinestesia é, basicamente, o cruzamento dos sentidos. Oi? Exemplificando:

  • Cheiro doce (cheiro = olfato e doce = paladar)

  • Olhar amargo (olhar = visão e amargo = paladar)

  • Voz macia (voz = audição e macio = tato)


Esse cruzamento de sensações, por si só, já amplia a forma como interpretamos o que está sendo narrado, não é? E ainda há várias outras figuras de linguagem que podem te ajudar, como hipérbole, metáfora, comparação, personificação...

  1. Não seja vago



Às vezes, na tentativa de demonstrar sensações, acabamos com frases tão vagas que adiantam tanto quanto (senão menos) do que se tivéssemos apenas contado. Se você parar para pensar, verá que não está mostrando nada ao escrever coisas do tipo: Eu nunca tinha sentido nada parecido antes. Afinal, como que o leitor vai se relacionar com isso? Não, seja específico. Pare e pense um pouco sobre como é aquilo, analise a sensação, faça caras e bocas... O que for preciso para transformar aquela ideia em algo mais concreto e palpável. Um exemplo que usei conforme editava o primeiro rascunho de Desvendando Teu Olhar, foi:


1º rascunho: "Estar com ele fazia eu me sentir protegida e confortável."


Edição atual: "Estar com ele era como usar o meu moletom favorito nas primeiras noites de inverno, uma sensação de proteção e conforto familiar que fazia cada partícula de mim se sentir aquecida e acolhida."


Pode ainda não estar perfeito, tudo bem, aceito totalmente a crítica. Porém, você pode ver a diferença prática que mostrar ao invés de contar causa e como mesmo um iniciante consegue aplicar isso e, aos poucos, ir melhorando com a prática.


E aí, bora tentar aplicar nas suas histórias também?

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