Perspectiva em primeira pessoa

By Anna Laitano - August 14, 2018




O que é?



A perspectiva em primeira pessoa, na literatura, é uma técnica narrativa que acontece quando a história é narrada de "dentro da cabeça" de algum personagem. Tudo o que vemos e sabemos é o que ele vê e sabe; consequentemente, nosso narrador pode ser tendencioso. Esta técnica, ainda, serve como uma espécie de spoiler inicial, pois o leitor infere que independente de como o enredo se desenrole, o personagem cuja perspectiva estamos compartilhando, deve sobreviver aos eventos, de forma que possa relatar até o fim.





Vantagens



A vantagem da perspectiva em primeira pessoa, é que ela torna mais fácil que o leitor sinta empatia pelo narrador, uma vez que vê exatamente as mesmas coisas e entende de onde vem cada linha de raciocínio.


Narrações em primeira pessoa podem ser escrita no Tempo Presente, o que significa que o autor também deve ter cuidado para que o narrador não conheça o futuro, mas isso dá a vantagem de o leitor não saber se o narrador sobreviverá à história.




Desvantagem



Por outro lado, embora um personagem perceptivo e que faça boas suposições seja aceitável, um dos erros mais comuns que as pessoas cometem ao escrever em primeira pessoa, é dar ao leitor a sensação de que ou o narrador está sempre certo, que tem algum tipo de poder psíquico ou que é onipotente. Para envolver ainda mais o leitor, o narrador pode pensar 'no' leitor, fazendo perguntas retóricas e fazendo algum tipo de comentário sarcástico.


Para ser bem-sucedido ao escrever em primeira pessoa, o narrador precisa errar em suas suposições do que acontece fora de sua linha de visão, e não deve saber nada sobre o que se passa nos pensamentos alheios, e talvez até enxergue os mesmos eventos de uma forma remotamente diferente, tendo memórias tendenciosas, por exemplo.




Exemplos



Série Crepúsculo




O tempo passa. Mesmo quando isso parece impossível. Mesmo quando cada tique do relógio faz sua cabeça doer como se fosse um fluxo de sangue passando por uma ferida. Ele passa desigual, em estranhos solavancos e levando a calmaria embora, mas ele passa. Mesmo pra mim.
(Lua Nova, de Stephenie Meyer)




Trilogia Os Jogos Vorazes




Além disso, não é da minha natureza cair sem lutar, mesmo quando as coisas parecem insuperáveis.
(Jogos Vorazes, de Suzanne Collins)




Dom Casmurro




Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.
(Dom Casmurro, de Machado de Assis)






Outros exemplos...



LIVROS




  • A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón;

  • Antes Que Eu Vá, de Lauren Oliver;

  • Para Todos os Garotos que Eu Já Amei, de Jenny Han;

  • Inventei você?, de Franscesca Zappia;

  • Sherlock Holmes (em geral), de Sir Arthur Conan Doyle;

  • O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman;





FILMES E GAMES




  • Cloverfield (2008)

  • Portal 1 (2007)

  • Half-Life (1998)

  • Overwatch (2016)





Conclusões Finais



Por fim, cabe ainda lembrar que a narração em primeira pessoa, para o bem ou para o mal, pode gerar finais abertos e dúvidas que perdurarão por anos. Como só temos a visão de um personagem para nos guiar, é difícil saber o que é verdade ou não (como famoso 'Capitu traiu ou não Bentinho?' em Dom Casmurro). Mesmo que hajam indícios para embasar teorias, apostar em uma resposta, a verdade é subjetiva e a memória é traiçoeira; sendo assim, a menos que no final as coisas que o narrador enxerga sejam provadas como sendo verdadeiras ou falsas, ele irá contar apenas sua perspectiva dos fatos.


Nos focamos primariamente em livros, mas para não excluir outras áreas da escrita criativa, cabe ainda dizer que em filmes e séries, é mais difícil conseguir o efeito total de perspectiva em primeira pessoa. Tanto que o único filme que consegui pensar foi Cloverfield, que é filmado com uma câmera de mão e, assim, nos dá exatamente a visão que os personagens estão tendo. Em videogames, por outro lado, é muito mais fácil, visto que o jogador precisa se colocar no lugar do personagem. Ainda assim, os melhores exemplos seriam first-person shooter que, como o nome sugere, você vê o que o personagem vê, ao invés de ver o personagem e o cenário


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