Escrita Orgânica versus Escrita Roteirizada

By Anna Laitano - May 25, 2018



Você provavelmente já ouviu as palavras do título deste post, mas talvez nunca tenha as ouvido juntas. Então, o que vem a ser escrita orgânica? É algo que se compra na feira? E escrita roteirizada? É sobre roteiros de televisão ou cinema? Não, não é nada disso... Não exatamente. Todo escritor usa escrita orgânica ou roteirizada, às vezes uma mistura de ambas, mesmo que nunca conheça especificamente esses termos. Mas como conhecimento nunca é demais, vamos falar mais sobre esse assunto?








ESCRITA ORGÂNICA



O que te vem à mente quando você pensa na palavra "orgânico"? Uma feira ou o quintal da sua avó? Certo, então como isso pode se relacionar com a escrita? É muito mais simples do que parece: A ideia por trás da escrita orgânica é que a ideia original seja apenas a semente: Você plantará a semente ao colocar aquela ideia inicial no papel e, a partir daí, a história se desenvolverá sozinha, por si própria — exatamente como frutas e legumes orgânicos, que não têm ajuda de influências externas.

Como assim?


Isso te confundiu mais? Calma, vamos tentar de outra forma. Basicamente, na escrita orgânica, você não deve tentar podar ou delimitar a história, porque, segundo defensores desse processo, isso acaba por podar a criatividade, deixando-a muito robótica e sem a fluidez natural. A ideia deve se desenrolar no seu próprio ritmo, conforme se apresenta na mente do autor, conduzindo o enredo e mostrando qual caminho deverá ser seguido. Usando uma analogia dita por Shonda Rhimes, é como estar construindo o trilho do trem conforme o trem está vindo; você vai colocando mais um trilho e mais um... Você molda a história conforme ela acontece, ao invés de antecipar todas as surpresas e reviravoltas. Você, como autor, deve lidar com a ideia conforme ela se apresenta, trabalhar com o que sua mente vai lhe fornecendo, sem tentar planejar muito lá na frente.


É claro, todo método tem vantagens e desvantagens. A vantagem da escrita orgânica, é a liberdade, a fluidez e a criatividade. A desvantagem, porém, é que é necessário redobrar a atenção na edição, atentando-se a pequenos detalhes que possam ter mudado no decorrer da história, ou até mesmo situações que escalaram ou seguiram de forma esquisita.








ESCRITA ROTEIRIZADA
(ou Método de Escaleta)



Já a escrita roteirizada é bem mais simples de entender (ou, pelo menos, deduzir do que se trata), não é mesmo? Seja por imaginar o oposto do método orgânico, seja pelo próprio nome, que é mais autoexplicativo. E é isso mesmo: Na escrita roteirizada, você vai pelo caminho totalmente contrário, tentando prever e controlar a história ao máximo, em todos os seus detalhes.


Muitos dos escritores que utilizam esse método, acreditam que a única maneira de criar uma mitologia completa, ou conseguir utilizar de técnicas como um bom foreshadowing requere que você conheça sua própria ideia a fundo, em todas as nuances possíveis. Afinal, como você irá dar dicas de um evento futuro, se nem você sabe o rumo que vai seguir?


Outra das vantagens da escrita roteirizada, é que você se atém ao necessário com maior facilidade. Se damos muita corda à imaginação, ela pode puxar para vários lados; já quando limitamos um pouco, direcionando-a, conseguimos eliminar distrações. Para fazer uma analogia inusitada, pense o seguinte: Você sai com o seu cachorro. Se ele está sem guia, ele provavelmente vai correr para um lado e para o outro, para longe e depois voltar, certo? Agora, se ele está preso, ele ainda poderá explorar, mas você estará no controle de até onde ele poderá seguir. Com a escrita roteirizada, é mais ou menos por aí. Não é sobre travar o desenvolvimento natural, e sim sobre direcioná-lo, saber mais ou menos o rumo e sempre amarrar a história direitinho, conduzindo-a na direção desejada.








QUAL É O MELHOR? QUAL É O CERTA? QUAL USAR?



Se você estiver se fazendo uma pergunta do tipo "qual dos métodos usar?", infelizmente não poderei responder de forma objetiva. A verdade é que cada autor tem seu estilo e tudo bem! Depende do que você quer atingir, do que você se sente mais confortável.


Pessoalmente, já usei ambos os métodos e vi vantagens e desvantagens em ambos. A orgânica sempre me causa um trabalho enorme na edição, porque tenho que acabar reconstruindo algumas partes fundamentais que vão sendo alteradas no decorrer da história. Já a roteirizada, às vezes acaba me travando, porque o rumo que eu preciso chegar não se encaixa, necessariamente, com a forma como a história evoluiu.


Por isso, aqui vai a minha sincera recomendação:


Conhecer os métodos é bom, porque é legal estar mais ciente do seu processo de escrita. Mas não tente focar especificamente em um método ou em outro. Faça o que pareça natural para você e, geralmente, uma combinação dos dois métodos tende a ser a melhor escolha. Quer você prefira algo que pareça mais verossímil e com oscilações, quer você não goste de deixar nenhuma vírgula além do necessário... A verdade é que é impossível (ou quase) usar puramente um dos dois métodos.


Querendo ou não, mesmo na orgânica, as ideias são suas, e o processo de tomada de decisão, onde você escolhe x ao invés de y, é uma forma de controlar a história — mesmo que de forma bem mais branda e, por vezes, inconsciente. Da mesma maneira, o roteiro pode estar entalhado em pedra, mas a história e os personagens devem ter certo grau de vida própria, senão algo está errado. Por mais que você tenha suas expectativas e formato ideal para o enredo, uma coisa é fazer um roteiro objetivo do rumo, outra coisa é realmente desenvolvê-lo.


E você, usa apenas a escrita orgânica/roteirizada, ou acha melhor uma mesclagem dos dois métodos?

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