Escreva o que sabe

By Anna Laitano - April 02, 2018



ESCREVA O QUE SABE



Embora tenhamos falado sobre as vantagens de escrever o que quer ler, muitos escritores e estudiosos concordam que a maneira mais simples de começar é pelo que você conhece e escrever o que sabe. Uma coisa não anula a outra, necessariamente, mas pode resultar em algumas diferenças, conforme mostraremos em detalhes.





A diferença básica entre escrever o que quer ler e escrever o que sabe é a seguinte: Você pode ter vontade de ler uma história que se passe nos anos 1500, ou que se passe em um hospital. Mas você tem conhecimento o suficiente sobre história ou medicina para escrevê-las?


É verdade que a pesquisa é um passo bastante importante para um(a) autor(a), mas também não podemos negar que quanto mais soubermos de um tema, mais fácil será falar sobre isso com naturalidade e evitar de cometer cometer erros.


Vamos usar Carlos Ruiz Zafón como exemplo. Ele é um autor espanhol, nascido e criado em Barcelona. E suas descrições da cidade são tão precisas que realmente nos faz sentir como se estivéssemos passeando com ele por lá. Observe o trecho para entender melhor o exemplo:


No final da década de 1970, Barcelona era uma miragem de avenidas e becos, onde, só de cruzar a soleira de uma portaria ou de um café, uma pessoa poderia viajar para trinta ou quarenta anos antes. O tempo e a memória, a história e a ficção se fundiam como aquarelas na chuva naquela cidade feiticeira. Foi ali, sob o eco de ruas que já não existem, que catedrais e edifícios fugidos de alguma fábula tramaram o cenário desta história.


Contudo, você não precisa de conhecimentos geográficos; você nem mesmo precisa que sua história se passe em qualquer localização real. Ainda assim, você tem que saber o máximo possível sobre o mundo que você está criando. Um exemplo disso, são as descrições igualmente convincentes e imagéticas do famoso contista de terror, H. P. Lovecraft.


O sol da tarde emergiu de trás das nuvens que se dispersavam, mas pareceu incapaz de iluminar as paredes manchadas e fuliginosas do velho templo que assomava o altaneiro platô. Era estranho que o verde primaveril não houvesse tocado as ervas marrons e secas daquele pátio cercado.


Obviamente, a questão do escrever sobre o que sabe não se resume apenas a cenários e localizações. Da mesma forma, não significa que você não possa escrever sobre temas fora da sua área de conforto. Porém, se você está começando, ou está insegurx, a melhor forma de começar, é no terreno confortável do que já é conhecido, o que assegurará confiança e fará com que você desenvolva melhor sua história.


Por exemplo, Carter Bays, um dos criadores do sitcom How I Met Your Mother, é defensor da dica de "[escrever] o que você sabe, ao invés do que você acha que quer ver". Sobre sua inspiração para escrever o seriado, ele ainda diz1 que "[Ele] estava solteiro e era bobo sobre isso e esperançoso, e o Craig e a esposa dele tinham acabado de casar. ... Parecia que tínhamos muito a dizer sobre ter 20 anos, e o amor."





Agora, caso você queira realmente escrever sobre algo diferente, algo com o qual não tem experiência, é imprescindível que você estude o tema até saber o suficiente. Isto, é claro, considerando que ele tenha bastante relevância no cerne da sua história, e que não seja algo fictício ou uma versão paralela entre a realidade e a ficção.


Por exemplo, se você tem uma única cena que se passa em uma delegacia, por exemplo, não precisará fazer tanta pesquisa quanto alguém que decide escrever uma história sobre o sistema penitenciário. Aliás, quando o tema é apenas um detalhe, você pode até mesmo escapar com pequenas falhas e invenções que não correspondem à realidade. Entretanto, a menos que você esteja criando um futuro alternativo, você não pode simplesmente sair inventando leis e tentando justificar comportamentos que nunca aconteceriam em um tribunal de verdade.


No fim, é tudo uma questão de 1) quanto senso de realidade você quer que a sua história passe? 2) quanto você está dispostx a fazer pesquisas e estudar melhor o tema?


Sobre a questão 1)



Primeiramente, vale enfatizar que quando eu digo "quanto senso de realidade", não estou dizendo que precise coincidir com o mundo real e seus cenários, regras e costumes. Apenas que, independente do universo que você está colocando no papel, mesmo a mais inventiva das ficções deve convencer. Não necessariamente da veracidade, mas de que, naquele contexto específico, aquilo faz sentido, aquilo parece real, possível de imaginar e aceitar.


Então, se você quer ser capaz de convergir as imagens que está narrando na mente dos leitores, você tem que, antes de mais nada, ter essas imagens bastante claras na sua mente — não importa se elas são reais ou não. É impossível passar uma descrição clara de algo que é abstrato até para você, certo?


Sobre a questão 2)



Aqui, é mais para temas específicos, quando o autor quer se ater um pouco aos mecanismos existentes em nossa realidade. Se você vai escrever uma trilogia que se passa primariamente em um hospital, você tem que conhecer alguns nomes técnicos e/ou procedimentos, de forma a dar mais veracidade ao enredo. Caso contrário, você ficará sempre nos genéricos repetitivos, que empobrecerão sua obra.


Um exemplo de uma escritora que usou o que sabia, é Carrie Hope Fletcher, em seu novo romance When The Curtain Falls (que será lançado em 12 de julho). Entre os muitos talentos da autora, ela também é atriz de musicais. E qual será o cenário de seu novo livro? O teatro. Com anos de experiência, escrever sobre o assunto não apenas reúne duas de suas paixões, mas garante o conforto de quem realmente tem autoridade e experiência com o tema que está retratando.


No fim das contas, a simples verdade é que todo autor deveria escrever por amor. Então, não é difícil achar algo que você ama, sobre o qual você queira escrever. Claro, transformar a ideia bruta em algo vendível, é outro assunto. Mas todos nós temos no mínimo uma história dentro de nós, esperando para ser contada. Qual é a sua?

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